sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Duda,

Um beija-flor passou por mim hoje e algo em sua cor me fez lembrar que tudo é tão lindo. Há tanta coisa que amo nesse mundo. Há tantos motivos para continuar. Mesmo que eu não saiba onde você está. Mesmo que as estações tenham mudado. Meu amor continua crescendo.

Acho que sou feliz. Porque as pessoas tendem a pensar que a Felicidade é estar pulando junto a sete ou mais amigos numa manhã de Sol e folga, mas eu penso que me basta o que tenho. Sou feliz assim. Há algo de grande e misterioso nas palavras e nas imagens que me completa quando começo a desconfiar das coisas.

Duda, gosto muito de te escrever. São raros momentos em que me sinto tão compreendido. E em cada carta, coloco toda a minha sinceridade e todo o meu coração. Mesmo que sejam cartas para ninguém. Mas sei que você preza pela brevidade das palavras e eternidade das sensações. Prezava, ao menos. Por isso, já me despeço. Com duas saudações.

Uma a você,

E outra à vida, que nos trouxe a esse teatro de improbabilidades.

Salve!

Com amor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Além da janela

A máfia bósnia o perseguia. Crianças sem nomes não desviavam o olhar de sua janela. Tudo o que podia fazer era apreciar a beleza dos raios de sol que entravam sorrateiramente e iam tocar o chão. A água chegava suja, a energia fora cortada, os suprimentos quase acabavam. Apesar de tudo, restava a internet. Postava fotos antigas, de amigos, mulheres e bebidas, fingindo que eram de então. A internet o mantinha vivo. Privado de todo o resto, não podia abdicar a verdadeira extensão da alma humana.
As crianças sem nome, às vezes, jogavam pedras. Quase agradecia por, enfim, poder sentir algum tipo de movimento. Mas jamais chegaria perto da janela e dos raios. A máfia bósnia o perseguia e as crianças sem nome tinham fuzis.
Postou outra foto. Recebeu comentários e aprovações. Cultivou toda a superficialidade de que tinha direito. Fora dali, não havia vida. Apenas os raios solares, as crianças bósnias e a máfia sem nome. Tinha uma pedra pela janela. E a escuridão. Os raios solares se foram?
Barulho. As crianças bósnias gritavam seus nomes? Não podia ter certeza, pois a janela escura sem raios solares era inalcançável. Na internet, a notícia de que a máfia bósnia fora encontrada morta no parque. Seria seguro se levantar?
Num momento de euforia, correu até a janela. Olhou em volta, para cima e para baixo. Viu nuvens pesadas de chuva, cobrindo os raios solares. Viu os prédios vizinhos, cobrindo o horizonte. Viu milhares de janelas, enfeitando os prédios. Dentro delas, viu milhares de computadores, cobrindo os corações. E quando achou que fosse ver um coração descoberto, sentiu uma pedrada na testa.
Uma criança bósnia gritou um nome.