(Re)busque

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Meios-nós


Metade de nós está aqui,
Outra metade sempre esteve.

Vinham descendo ladeira abaixo, meias-árvores charmosas. O verde novo, de novembro, escuro e trágico. O capim combinando. Pedras pretas, do trilho do trem. Madeiras marrons, de troncos, tábuas e postes. O calçadão, cada vez mais largo pra tanta pouca gente.

À frente, no topo da ladeira, um banco de concreto confortável. Uma agradável arvorezinha mal-cheirosa e chorona, ao mesmo tempo em que se debruçava sobre o banco, fornecia uma sombra fluente, contra os fracos raios de sol. Sentando no banco, um velho negro, vestido com trapos, de cabelos brancos e pés descalços. Ao seu redor, a fumaça do cachimbo do tempo, irradiando lembranças difusas. A morte, na esquina, estacionada.

No alto, quanto mais próximas as nuvens do astro-réu, maior a condenação ao vermelho-alaranjado. E o céu tinha de estar azul, daquele jeito, para fortalecer aquele contraste tão conveniente. O relevo horizontal remetia às montanhas norueguesas que nunca visitamos...

Na rua, buraco. Agora não, agora sim, mais outro não, mais outro sim... Na face, um sopro leve. Mais tarde, um vendaval. E a marcha da vida mudando a cada instante. Só saindo de primeira.

Ali debaixo, no topo da ladeira, via-se um morro acima. Não um morro de saudades ou de amor, mas um morro de beleza. Sem fumaças de cachimbos do tempo, que a morte só sobe ladeiras, e não morros. Ela não morre.

Morro de verde e não de mortalha. Capim, alecrim dourado. Tortuosas esculturas do cerrado, cupins engenheiros. Atmosfera química mente pura, matemática mente equacionada.

Deixando para traz, terras, trilhos, tábuas, tudos e lestes. Lá também ficam as meias-árvores.


P.S.: Eis o fim - temporário ou não.
Próximos passos:
1. vestibulares.
2. aprender a me virar.
3. escrever outro livro.
4. me mudar.
5. voltar a blogar?

Até lá, estou sempre no twitter:
http://www.twitter.com/venichu
Como diria o sábio Chapolin,
sigam-me os bons.

sábado, 7 de novembro de 2009

Tanta vida resta. Tantos textos escritos, outros por escrever; tantas músicas, tantos livros, tantos amigos e a ventania de véspera da chuva que já veio.

Eu: desajustado.

Uma pausa

...
para me reajustar.

Continuo tentando me encontrar.


"E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós.
Solta a prosa presa,
A Luz acesa.
Lá se dorme um Sol em mim menor.
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior."
(O Teatro Mágico)

sábado, 17 de outubro de 2009

Arte-fícios urbanos

- Não gosto de política... - pronunciava uma mulher, em um fim de tarde promissor.

Suas frases, entretanto, não eram, exatamente, ditas. Eram meio que soltas, largadas a esmo. E então, passavam a flutuar na atmosfera, como os resíduos sólidos de nossa indústria. Próspera fumaça do tempo!

- Nem eu... - concordava o amante, deitado ao lado da mulher.

A cena era uma daquelas eternizadas. Não como uma pintura renascentista, mas como uma fotografia moderna, com todos os seus arte-fícios. A grama verde-escuro, o céu branco-avermelhado, as roupas pretas. O morro infinito, acima e abaixo, refrescava o espaço. Os pássaros sugeriam uma alegria eterna. As feições inexpressivas.

Ia e vinha, voltando veloz, às vezes, um vento vertente. Levava os cabelos, fluidos como as frases. Trazia-os de volta, então. E vinham voltando bem revoltos.

Era fácil não gostar de política. Difícil era viver.

- Ainda bem que viemos à igreja. - concluiu a mulher, satisfeita.

Enquanto isso, rezavam os fiéis, ao fundo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

As flores e a revolução

Feliz por ter, mais uma vez, voltado.


Foi em uma memorável tarde de domingo, entre aves e palmeiras, ao som dos fiéis e ao lado dos pagãos, que encontrei Elis pela primeira vez. Fosse uma, fosse três, Elis valia mesmo era por duas. Mesmo sem Regina e sem voz. A moça, linda em sua discreta normalidade, segurava um ramalhete de flores que a amiga ganhara.

– Flores-de-Elis... – nomeava, sorrindo, orgulhosa.

Enquanto isso, a amiga abraçava o namorado. Dia dos namorados, devia de ser. A memória me falha e nem eu, nem Elis ligávamos para isso. Os historiadores que se importassem com datas. O nosso lance era a biologia do amor, a física dos corpos... E a botânica dos nomes, claro.

Aproximei-me sorrateiramente. Não sei se me descuidei demais ou se flor-de-Elis que era observadora mesmo. Deixou escapar um suspiro de frustração.

– Meu primeiro namorado vai sair de trás de uma moita?

– Hã? – dissemos.

Dissemos todos nós. O casal de namorados e eu também, saindo de trás do arbusto. Nem era tão moita assim, Elis. Nem era.

– Você tem muito que aprender, rapaz. – disparou ela. – Fique tranquilo: eu ensino.

Então, pegou-me pelas mãos e me arrastou pela praça, sem se despedir da amiga. O casal ficou olhando a gente sumir entre as flores. Os fiéis já até deixavam a igreja, e os pagãos se preparavam para entrar.

– Eu sou... – ia dizer.

– Deve ser mesmo. Mas “moço” é muito mais bonito. – contrapôs ela. – Combina mais comigo, entende?

Fiz que sim com a cabeça, mas menti. Jamais entendi a minha flor.

– Quando vai ser a revolução? – peguntou ela, durante a nossa caminhada.

– Que revolução?

– Vocês vão começar pela mídia ou pelo governo?

– Não gosto da mídia...

– Então, pela mídia. Faça o difícil primeiro, que depois só resta o fácil...

– Difícil seria fazer o difícil primeiro e o que restar nem ser fácil...

– Mas o fácil é fazer do difícil o fácil. Em todo caso, comece pelo governo.

– Aí, teríamos de fazer o fácil primeiro, e então restaria o difícil para o fim...

– Moço, deixa de ser difícil... Tô vendo que fácil vai ser eu mesma fazer o difícil...

– Hã?

– Deixe com a flor aqui.

Flor fez a revolução. Não começou nem pelo governo, nem pela mídia. Começou por mim, que não era fácil nem difícil. Foram meses de encontros. Na praça, no cinema, na igreja, na moita. Flor rezava. Pedia um pai-nosso de cada dia para a mãe-dela de cada semana. E só. Se acreditava no padre ou no pastor, se temia o pecado e o inferno, jamais saberia. Apenas comentara, uma vez, sobre o respeito que tinha pelo deus das flores. Deus dela, afinal.

– Venha me ver amanhã. – pediu ela, depois da visita à moita.

– Aqui?

– Não, na praça do primeiro encontro.

– Por quê?

– Acredito na necessidade de simetria entre o início e o fim...

– Hã?

– É.

Fui. Andei bastante pela praça. Flores tinha muitas, mas nenhuma de Elis. Caminhei até o casal de amigos, que parecia nem ter se movido dali, desde aquele dia dos namorados.

– Vocês viram Elis?

Quem?

A moça que estava segurando o ramalhete para vocês, no dia dos namorados...

– Só pode ser uma brincadeira! – zangou-se o moço.

Hoje é o dia dos namorados... – destacou a moça.

– Agora, se ninguém te quis, ao menos não atrapalhe os casais que deram certo! – ralhou o moço.

Que consideração, aqueles dois. Esquecer assim de Elis! Eu nunca esqueci. Jamais esquecerei, enquanto essas minhas células ainda processarem todo esse metabolismo... É possível mesmo que a leve para além da vida, para além da organicidade...

Começava a me preocupar, quando tive a ideia de checar a moita. Se Elis não estivesse ali, teria me deixado. Sorri de orelha a orelha ao ver a moita se mexendo. Lá estava Elis. Só não contava com aquele Girassol...

– Elis! – pronunciei. – Achei que me amasse!

Ele se assustou. Ela apenas me olhou com atenção.

– Eu te amei, moço. – respondeu, séria. – Mas já passou...

– Então, por que me chamou? – indaguei, segurando um turbilhão de lágrimas.

– Só pra preservar a simetria no fim... – disse, virando-se para o seu novo moço.

A revolução fora silenciada. Não pela mídia, nem pelo governo.