segunda-feira, 15 de agosto de 2011

(Su)pressão

Para Andressa,
que já me alertou algumas vezes sobre
os perigos em suprimir sentimentos.

su ▪ pri ▪ mir: v. (1563) 1 t.d. agir no sentido de acabar com (algo); extinguir, eliminar, cancelar 2 bit. tirar (uma parte) de (um todo); cortar, retirar 3 t.d.bit. fazer desaparecer; ocultar, afastar 4 t.d. assassinar ou mandar assassinar (alguém); eliminar; matar ETIM lat. supprìmo,is,pressi,pressum,mère 'fazer mergulhar, ir ao fundo'.
[HOUAISS]


Os longos cachos loiro-escuros serpenteavam, ao sabor do vento, libertos de toda monotonia. A pele alva, em confluência com o cinza-claro dos olhos, exalava brilho. O corpo esbelto servia de suporte para uma face doce e bela. O vestido largo e florido combinava com a ingenuidade de uma Alice em um país de maravilhas. O carinhoso apelido de “Su” lhe conferia a meiguice que merecia. Mas aquelas olheiras inviabilizavam qualquer perfeição lírica.

– Não tem dormido, Su? – perguntou uma amiga, do lado.

– As últimas ordens que recebi têm me tirado o sono – respondeu, enquanto se aproximavam da praça.

Durante todo o tempo em que trabalhara como investigadora, ocupara-se em suprimir sentimentos. Toda a raiva que sentira pelo chefe, imprensa ou colegas; a afeição que nutrira pelas vítimas, a aversão que sentira pelos acusados: tudo havia sido conveniente e devidamente ocultado.

As coisas começaram a mudar quando um dos acusados chamou a sua atenção. Tinha ares filosóficos demais para o crime. Era simpático demais. Era bonito demais. Era demais. Suprimamos o resto, caro leitor.

Começou a cogitar novas possibilidades de vida. Exteriorizações e afetividade, quem sabe? Tudo seria possível para aqueles que soubessem sentir (ela, inclusive). Até que...

– Suprima-o – ordenou o chefe.

Hesitou sobre o que suprimir: o amor ou o trabalho. O amor, que ela nem sabia se era mesmo amor, que não havia experimentado ainda e que poderia arruinar a sua vida. E o trabalho, em função do qual suprimira uma vida de sentimentos, mas que lhe proporcionara os momentos mais “estáveis” de sua vida.

Na dúvida, atirou-se no rio. Suprimiu-se.


“Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.”
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

3 comentários:

Geraldo Pinho disse...

O texto pode melhorar, mas já é uma novidade encontrar alguém que saiba escrever: tu. Critico, não como crítico, e sim como leitor, dentro do qual bate um coração.

Vinícius disse...

Caro leitor,

Respeito a crítica e acredito que todo texto pode sempre melhorar. Mas a insensibilidade que criticas como leitor "dentro do qual bate um coração" é própria da intenção do texto.

Leia com outros olhos.

E desculpe se entendi tudo errado.

Renato Mendonça disse...

E quando começo a me envolver com a história, ela acaba... Sabia que você poderia escrever um livro? Ficaria muito bom, acredito eu XD

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