terça-feira, 24 de março de 2009

Digressões Lunares

“Mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado
do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação
desdenhosa da nossa liberdade espiritual?”

Machado de Assis

Era um fim de tarde exemplar. O calor torturando, os carros poluindo, os prédios intactos, os cidadãos comportados em seus caminhos para casa. E o chão tremendo pelo peso daquelas vidas.

Em síntese, um mundo um tanto cansativo. Talvez por isso uma garota indecisa se ausentasse deste. Ao se guardar, preservar-se para o amanhã, aquela cidadã omissa esperava o momento de reinar indiferente. Ali, sentada na calçada, ao lado de um trio sorridente e escandaloso de garotas, só ouvia a sua própria voz mental, que repassava os últimos conceitos de Ecologia.

E o mundo corria. Também indiferente. Seria a justiça dos mesopotâmicos? Ou a injustiça de nossos dias? Um ou outro, bom que seja. Não pode é não ser.

O celular tocou. Era o pretexto perfeito. Transformou a mensagem da operadora, que clamava por inserção de créditos o quanto antes, em aviso materno. Também adicionou urgência.

– Tenho que ir – avisou.

As amigas balançaram a cabeça, ainda sorridentes, ainda escandalosas.

O caminho foi tortuoso. Os tremores continuavam, a atmosfera amoniacal e sufocante da noite começou a surgir. Os fantasmas já se posicionavam para o espetáculo de logo mais.

Contudo, ainda pôde sobreviver. Em parte, porque viu dois homens, de mãos dadas, sorrindo reciprocamente, indiferentes à reprovação dos espectadores. E em parte porque viu um lindo rapaz por quem se apaixonou.

Logo chegou em casa. Fechou a porta atrás de si e respirou aliviada. Deixou tudo para trás: os tremores, o calor, os fantasmas, o respeito e o amor. Embarcou, pequena de tão feliz, em seu próprio mundo.

10 comentários:

Alam Oliveira disse...

Até o mês passado eu não sabia o significado da palavra digressão, quer dizer este efeito de romper a continuidade.
O texto ficou muito bom garoto!

Marcelo A. disse...

Rindo muito aqui... Eu já inventei uma desculpa como essa, pra cair fora. E, vez ou outra, também me sinto meio deslocado, como se "aquele" mundo não fosse meu. Aí, não vejo a hora de voltar pro meu universo particular...

Belo texto... como sempre!

Um abraço!

Fabioc disse...

Acho que esse foi um dos melhores textos q li nesse blog.
Essa fuga constante desse mundo louco ocorre tanto cmg que me familiarizei com a desculpa da menina para fugir. O alívio de chegar em casa e me trancar no meu mundo, as vezes preciso tanto disso...

Parece q sei o que ela sentiu, o q vc quis dizer, de forma clara, tão clara...

Belo post

Lucas Moratelli disse...

Todos nós temos de certa forma um mundo só nosso. Neste, damos os significados que mais nos convém, pintamos o céu da cor preferida, conseguimos conforto mesmo não estando confortáveis.

Com o tempo algumas pessoas acabam se distanciando de seus "mundos".

Texto magnífico Vinícius.

Abraço.

Lucas Moratelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo A. disse...

Concordo contigo em gênero, número e grau, meu caro Vina!

Fiquei curioso sobre o Projeto de Lei que me enviou. Fui dar uma pesquisada e achei isso aqui:

http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166

Pelo visto, a coisa anda parada... Vamos ver, né? Querendo fazer pressão, tamos aí!

Abração!

Jamile Gonçalves disse...

Isso é bom... Deixar o mundo lá fora e nos trancarmos em nós mesmos, pode soar como alienação, mas é gratificante... É "embarcarmos, pequenos, de tão felizes em nosso mundo"...

Lari. disse...

Voltar ao meu mundinho particular já não me é suficiente. Chego a ser capaz de espantar os medos e abafar os tremores, mas sempre sinto a falta do amor.
Não dá, não consigo criar ilusões que me façam sobreviver sem dor a essa ausência.

José Ricardo Lima disse...

Olá Vinícius... Sou professor da Rhayanne. Já tô ficando fã do seu blog heim... Parabéns...

~*~ Ágatha ~*~ disse...

Ahh como eu queria um mundo pra me esconder e fazer o que eu quisesse.

Mas não é assim né?

Vinii
Vc vê os sentimentos, vc vê os sons, observa o sentidos e sente o que se esconde... e a melhor parte,
vc transforma isto em palavras.

Suas narrativas são muuuuitoo boas pq trazem o que poucos conseguem ver

Bjos no s2

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