domingo, 18 de janeiro de 2009

Cactus floridus

Foto de 17/01/2009

Eu havia há pouco completado uma década de vida, quando ouvira falar de uma tal feira de exposição de plantas que ficaria em minha cidade por algum tempo. Os anúncios estavam por toda parte e o destaque especial era para as orquídeas. Não que me interessasse por Botânica – nessa época eu nem tinha aulas de Biologia ainda. Minha atenção estava mesmo voltada para uma das espécies comercializadas.

O que me atraía eram as histórias assombrosas contadas pelos meus amigos sobre umas tais plantas carnívoras. Um deles, que facilmente persuadiu sua mãe a comprar-lhe uma destas, dizia a torto e a direito ter visto, com aqueles olhos que a terra haveria de comer, a sua planta digerir um bife inteiro. Outro, mais modesto, dizia ter fotografado sua planta mastigando um louva-deus. Os que requisitaram a foto a este último, infelizmente, tiveram o azar de o filme ter queimado.

E eu, naquele tempo áureo em que tudo se pode, não resisti àquela moda. Haveria de ter uma planta carnívora que comesse até gente! Teria o cuidado, é claro, de educá-la para que não me comesse. Pedi, então, alguns reais ao meu pai, que gentilmente os cedeu. E fui sozinho até a tal feira, que estaria em frente à Igreja do Rosário, não muito longe de minha casa.

Era uma estrutura única de madeira, coberta por uma lona; porém ampla e ventilada. Sob tal proteção, estavam dispostas várias bancas a exibir desde as plantas mais exóticas até as mais banais. À direita, alguns vasos com plantas floridas, tais como antúrios e copos-de-leite. À esquerda, muitas espécies de cactos, de variados tamanhos e aspectos. Mas, bem à minha frente, sob um anúncio chamativo e no centro de uma multidão – as plantas carnívoras!

Aproximei-me, atônito. E o que aconteceu com as minhas feições, durante tal aproximação, teria espantado qualquer um: de uma excitação singular, com um sorriso de orelha a orelha e olhos bem arregalados, passei a uma decepção mortífera! Acontece que as tais plantas carnívoras eram minúsculas. Levaria décadas para que digerissem o tal bife. Poderia ser, contudo, que eu tivesse chegado tarde, e só tivesse sobrado aquela espécie sem graça.

– Não, só trabalhamos com essa espécie – respondeu a vendedora, sorrindo.

Como se não bastasse a primeira decepção, ainda haveria uma segunda: o preço. Meus modestos reais não pagariam nem uma daquelas plantas comedoras de carne. Virei à esquerda, finalmente, com o intuito de partir, sem mais o que fazer ali. E eis que, em minha frente, surge uma singela muda de cacto, menor que o meu antebraço, plantada em uma simples latinha de margarina, esquecida. O preço, escrito abaixo dela, era perfeitamente cabível aos meus reais. “Por que não levá-la?”, perguntei-me.

Meu pai nem ligou para a minha aquisição, ao passo que a reação de minha mãe não foi lá a melhor. Achou a planta toda estranha, perigosa e imprópria.

– Que me trouxesse violetas, meu filho – reclamava ela.

Algum tempo depois, resolvi retirá-la de seu medíocre vasinho e plantá-la em um canteirinho que temos em frente à casa. Não me lembro bem que recursos utilizei e se a planta não correu risco em minhas mãos, nem eu em seus espinhos. Sei é que está lá até hoje, anos depois, com quase o dobro do meu tamanho, várias ramificações verticais ao redor da mais antiga, um aspecto meio sinuoso em cada ramificação e sobre um solo coberto por grama.

Com o passar do tempo, a aceitação de minha mãe foi surgindo, gradativamente. Meu pai abandonou a indiferença ao meu cacto. Meu irmão aprendeu, do jeito mais difícil, a não abraçá-lo. E eu me afeiçoei cada vez mais a minha querida espinhosa.

Pois que esta semana, ela resolveu brindar-nos com uma agradável surpresa. Três singelos brotos surgiram em uma de suas ramificações. Enquanto estes cresciam, o debate familiar era sobre a cor da flor que viria. Apostei no roxo. Não me lembro bem se meu pai ou minha mãe – nem eles se decidem – optou pelo branco.

Certa noite, abriu-se uma linda flor branca, com muitos pistilos e estames amarelos. As sépalas meio verdes, meio roxas. No decorrer do dia seguinte, foi aos poucos murchando, após o trabalho exaustivo dos insetos polinizadores. Dois dias depois, em uma outra noite, os dois outros brotos floresceram e, no dia seguinte, também murcharam.

Que bela reflexão tiramos daqui, leitor amigo! Uma planta estranha, perigosa, que depois de uma eternidade de anos resolve exibir uma das mais belas flores que já vi, por apenas uma noite. Uma planta comprada como segunda opção, que aos poucos conquistou cada membro da família, pela sua imponência e beleza de sua flor... Que venham os frutos!

Quanto ao nome científico, nem me pergunte, caro leitor. Investiguei bastante, com base no aspecto da planta e das flores. E os resultados desta árdua pesquisa foram muitas dúvidas e nenhuma certeza. Contudo, na falta de um nome científico válido, eu invento o meu próprio. E, avaliando o caso e o sentimento envolvido, o leitor há de o considerar apropriado. Pois que seja o meu eterno Cactus floridus.

15 comentários:

felippe-freitas disse...

Belo texto meu caro, sua experiência com as plantas fora deveras poéticas.Um assunto simples para uma reflex]ão complexa...

Thiérri disse...

legal... me fez lembrar o filme do Denis o pimentinha, onde o Sr.Wilson esperou anos para ver a planta dele florescer e o Denis atrapalha ele bem no momento...

he he!!!
como anda a planta?

Michel Domenech disse...

Cara, que texto excelente, narrasse de uma forma muito interessante um fato bem cotidiano, é isso que difere quem sabe escrever de quem não o sabe: a forma. E quanto ao cactus é o velho dito de que as aparências enganam, assim como ver atitudes belas de alguém visto como grotesco e ver belas flores surgirem de um cactus.

Michel Domenech disse...

Cara, que texto excelente, narrasse de uma forma muito interessante um fato bem cotidiano, é isso que difere quem sabe escrever de quem não o sabe: a forma. E quanto ao cactus é o velho dito de que as aparências enganam, assim como ver atitudes belas de alguém visto como grotesco e ver belas flores surgirem de um cactus.

Jamile Gonçalves disse...

Adorei seu estilo de escrita... Gostei muito mesmo. Instiga o interesse do leitor...
Quanto ao caso... Passando o aniversário na fazenda de meu pai, certa vez, acordei com uma dessas belíssimas flores que nascem dele mesmo... O mandacaru. O pobre, feio e medonho mandacaru. Aiai

Jamile Gonçalves disse...

Ah! Adorei a [frase] e a imagem do teu blog... Foi você quem fez?

Jamile Gonçalves disse...

A frase eu conheço, nosso Garoto de aluguel...
Quanto ao comentário o indivíduo... Já escrevi coisas muito confusas e sinceramente este não se inclui na lista delas...
Enfim, obrigada!

Marcelo A. disse...

Cara, tô impressionado... Você escreve muito bem! Seu texto é maravilhoso, parabéns! Te convido a aparecer lá no blog... Nem de longe se compara ao seu, mas custa nada, né?

Sucesso!

www.marcelo-antunes.blogspot.com

Fabíola disse...

Eu gostei muito do texto. O português dele é,de certa forma, impecável. Gostei da singeleza do texto também, pois ele fala de aprendizados simpres do nosso dia-a-dia.

Marcelo A. disse...

"Parada errada" - o nome já diz tudo. Alguém que se envolveu com alguma coisa ilegal, ilítcita... errada!!! Rsrsrs! Em claro e bom Português: o sujeito que se meteu com o que não devia!!!

Gíria de carioca...

Kacau disse...

Achei maravilhoso o post, ele ensinou a vc da sua familia e a nos o seu relato a não julgar pela aparência e não se deixar pelas primeiras impressões. Vc escreve muito bem.

http://messnatural.blogspot.com/

Erica disse...

Massa
muito bom!

Lucas Moratelli disse...

Lindíssimo relato!

Eu tenho um cacto que trato muito mal, vou rever meus conceitos com o coitado.

Obrigado pelo comentário.
Não que eu tenha me libertado, talvez tenha sido um início para tal. Muitas pedras ainda pelo meu caminho até o castelo.

Só tenho a dizer pra encerrar, que você escreve maravilhosamente bem.

Abner Moreira disse...

Cara, primeiramente queria dizer que você escreve MUITO beeeem! Muito bem MEEEEESMO!
Hahahaha! Morri de rir da planta carnívora que comeu o bife!
Quanto ao Cactus floridus, nada tenho dizer a não ser BELAS FLORES!
E como ele, são as pessoas!
Apesar de rudes, agressivas por fora, lá dentro, em algum lugar, deve ter alguma coisa de bom. Cedo ou tarde, elas acabam deixando com que isso "escape", nem que seja por uma noite.

http://abnisland.blogspot.com/

Veiga disse...

mt bem escrito... parabéns.



violetas seriam melhores, n? mas o nome... ficou legal! HUSAHuAS

abraço

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