quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Espera ritmada

"De repente nunca mais esperaremos..."
Vinicius de Moraes

Os passos do moço pareciam refletir bem a sua juventude: irregulares, denotavam a preocupação própria da idade do dono dos pés. Seus sapatos, ao tocarem o chão, produziam um som seco e forte, de uma frequência menor que o tiquetaquear do relógio. Mas aquele caminhar, em particular, não remontava às sensações corriqueiras dos primeiros tempos.

O ar gélido do local em que caminhava – em círculos e elipses – também rompia a normalidade. Este parecia ter a desagradável capacidade de penetrar suas narinas e preencher seu corpo do temor supremo – o da morte. O corredor em que ia e vinha, por sua vez, decorado de sombras e penumbras, preenchido de portas, quadros e bancos a distâncias regulares, e com toda a sua melancolia; pertencia a um hospital.

A situação que o empurrara até ali era a mais grave que poderia imaginar. Aquele que lhe dera metade da vida, parte substancial da educação e amizade integral sofrera um sério acidente de percurso. Não o seu herói, em sua imperfeição, mas um dos mortais mais importantes em sua trajetória – o seu pai – dependia agora, quase que exclusivamente, da competência dos médicos.

Dinheiro para o tratamento não faltaria. Mas é que, às vezes, a cobiça da morte não respeita o ouro. E ainda havia um agravante: o enorme coração do pai que, de tão grande, às vezes batia descompassado; virtude, inclusive, herdada pelo filho.

Ele sabia que, devido a tal grandiosidade, naquele quarto de tratamento intensivo, a vida do pai oscilava. Os médicos deixaram claro a situação delicada que tinham em mãos e prometeram fazer o possível. Ah, quando eles prometem fazer o possível! O moço sabia que, às vezes, a impossibilidade vestia os trajes adequados e reinava absoluta. E então, aos súditos restava obedecer.

Conhecer as dificuldades, contudo, nunca significou ter o espírito apaziguado. Ou pelo menos não com o moço dos passos que, aliás, em pouco tempo já se encontrava a uns cinco metros do banco em que depositara a carteira e as chaves. Não que passasse por sua mente a possibilidade de furto – o corredor estava deserto àquela hora da madrugada –, mas finalmente se dava conta de quão longe o levaram a impaciência e o nervosismo que o acometiam.

Tudo pareceu parar – inclusive o tiquetaquear do relógio – quando um vulto vestido de branco surgiu na extremidade oposta do corredor. O moço ergueu lentamente o seu olhar, que antes contemplara seus próprios passos. À medida que seu campo de visão se expandia, o som dos passos do vulto ecoava pelo lugar, estes bem mais acelerados que os do moço, de outrora.

Assim que o pescoço finalizou seu movimento, a visão se completou: uma bela enfermeira caminhava, pelo longo corredor, em sua direção. Cabelos cacheados, loiros, meio escondidos pela toca, os trajes de praxe, a estatura média, a forma física esbelta. Seria uma imagem tranquilizante, não fosse pela expressão facial.

A mulher não trazia um sorriso, vinha inexpressiva, como quem tivera um dia daqueles... A testa meio franzida demonstrava a preocupação com os papéis em sua mão, que ela parecia tentar ordenar. Ou talvez, ela se preocupasse com papéis um pouco maiores, embora habituais...

O pobre moço não recebeu bem aquela visão. Os pés, que não mais caminhavam, sentiram o tremor vindo das pernas. Ou talvez vindo do corpo inteiro. O coração – enorme como o do pai – acelerou, como na adolescência... Mas, desta vez, parecia haver algo de errado com o freio. O coração achou que tamanho era documento, e bateu mais rápido. O moço não conteve um passo para trás, se curvou e levou a mão ao peito.

Pensava no pai, na medida do possível. Entre uma punhalada e outra, no coração, vinham imagens, em sua mente, dos passeios e dos gracejos do pai. Predominavam, no entanto, visões da inexpressão e dos papéis da enfermeira. Afinal, que razão teria feito a mulher negar um sorriso? Que papéis ela tentava ordenar? E por que caminhava lentamente, parecendo adiar um encontro?

Quando finalmente acertou os papéis, ela olhou em frente. Ou quem sabe um gemido tenha atraído a sua atenção. O fato é que o esboço de sorriso, sua primeira reação ao ver o moço, se desfez rapidamente, assim que constatou sua posição. A expressão facial da mulher, então, foi substituída por espanto.

Ela soltou os papéis repentinamente e correu em direção a ele. Corria, corria e corria, tentando vencer o corredor. E o moço já não via nem sentia nada mais que vinha de fora. Apenas o chamado, de dentro, tinha a sua atenção. O sangue parecia irradiar pelo seu corpo, a toda velocidade. As batidas do coração mais pareciam uma explosão de fogos de artifício. Talvez comemorassem o novo ano, a nova vida...

Vida que oscilava, pesada. A um movimento do pescoço, a silhueta da enfermeira também parecia oscilar, triplicada, à frente do moço. Tudo aquilo, distante do descompasso inicial entre os pés e o relógio, agora parecia enfeitar uma calma ópera... De uma melodia com notas que iam e vinham, pelo espaço. E o moço dançava, como não? Curvava-se em direção ao chão, como se reverenciasse o público da ópera e o da vida também.

O relógio, mais uma vez, ainda que de lugar e com intenção diferentes, voltou a marcar o tempo. O moço conseguia enxergar bem à sua frente, no chão, um pêndulo que acompanhava religiosamente o ritmo da melodia, da ópera, da vida. Um ritmo oscilante e calmo. Como não se entregar à beleza daquela arte? Uma arte exclusiva, única. A música, afinal, era só para ele. E a viagem também.

Por fim, com uma nota grave, acompanhada dos aplausos, da luz a desvanecer e do ar gélido de outrora, a melodia cessou. De repente, o moço dos passos nunca mais esperaria.

16 comentários:

Airton disse...

opaa gostei cara...um texto longo mas naum cansativo

parabens

R.S.V. disse...

escreve muito bem ^^
Bom quero agradecer o comentário.
Acredita que eu consegui uma pessoa aqui pelo blog mesmo pra escrever o roteiro?

Se quiser eu te mando sim.
Só preciso saber se o autor da peça não vai criar nenhum empecilho quanto a isso. Mas pelo pouco que conheço acredito que ele deixará

Passarei sempre por aqui
E desejo que 2010 seja muito bom pra vc :D Já que tem tantos planos

Jenyfer Ramos disse...

vinicios de morais..

um grande cara...

seu blog e sua forma de escrever foi mto bem escolhida e aplicada..
parabens..
sucesso na vida e no blog...

visiti-me sempre...

ja acompanho seu blog

Marcos Costa Melo disse...

Definitivamente gosto dos seus escritos, rapaz.

Você tem o hábito de participar de concursos literários? Se não, deveria pensar no assunto.

abs

Casa do Besouro disse...

Vc escreve muito bem, parabéns.
continue assim.
Vou acompanhar seu blog =D
Curti o jeito que vc escreve.

www.casadobesouro.blogspot.com

Euzer Lopes disse...

Nó na garganta. Impossível não lembrar de meu pai, que mora no céu desde 2006.
Siga os conselhos do Marcos aí em cima...

Marisa disse...

ADOREI seu blog!!!!

Você escreve muuuito bem!!!
Provavelmente voltarei aqui!

Um oferecimento do neófito mas distinto: chip-novo.blogspot.com

Bia *~* Ballu disse...

Vou confessar que o texto longo me desencorajou, mas a simplicidade, deixa eu pensar na palavra... a facilidade deixa gostoso de ler.
Muito bem =)

http://alacarte-domeujeito.blogspot.com/

Clóvis sivolC disse...

ai q preguiça de ler!!!!

douglasfert disse...

As pessoas veem um texto longo e já fogem do post.
Mas, as vezes, vale a pena deixar a preguiça intelectual de lado e lê-lo. Neste caso, valeu.

Every Day disse...

É verdade.

Sei que quando amamos a última coisa que devemos fazer que "deixar de tentar", mas não tenho mais forças para lutar contra a indiferença a qual esta pessoa me trata, então acho que a única coisa que posso fazer é "dar tempo ao tempo", como a mesma me disse.

obrigado pela visita, e adorei teu blog, e os posts.
;D

amandaedalete disse...

Nossa, confesso de odeio texto longo... Mais esse eu li todinho, porque adoro Vinicius de Moraes...

Há coisas na vida que parece uma surpresa outras não, como se tivese determinado.
Acho que foi isso que o texto quiz expressar xD

Lucas disse...

Surpresas. Na maioria, sem tragédias.






http://quartodealuguel.blogspot.com/

Cintia Pereira disse...

Seu texto me remeteu a lembranças, sempre vivas, de corredores de hospitais e de pessoas que se foram. Mas não me trouxe tristeza, só recordações.

PS: Obrigada pela visita no meu blog. O seu comentário é bem semelhante ao que pensei ao ler a frase.

~*~ Ágatha ~*~ disse...

Ei gostei mocinho ;)
Muitos pensamentos, muitas palavras tudo se completando, descrevendo a realidade dos fatos.

Quem começa ler o texto não imagina o que há pela frente.

Bjão =**

Anônimo disse...

Por que nao:)

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