sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Dentro de nós

“Algo preencheu o meu coração com nada.
Alguém me disse para não chorar.
[ARCADE FIRE]

Um relâmpago ultrapassou o vidro da janela fechada e veio fazer companhia às lembranças da jovem moça. A chuva forte tentava repetir o feito, mas o vidro era uma barreira seletiva: permitia a entrada de luz e impedia a de umidade. Ainda assim, permanecia constante o som da chuva contra a janela; era um meio de perpetuar o esforço dos oprimidos.

A moça encolhia-se em um grande e confortável sofá. Por vezes, virava o corpo para outro lado, mas pouco alterava sua posição. Aquela parecia ser a melhor forma de lidar com o vento frio da casa solitária e escura, já que não se dignara a trocar os shorts por uma calça ou a vestir meias. Seus longos cabelos escuros bagunçavam-se mais a cada novo movimento no sofá.

Outro relâmpago trouxe novas memórias. Lembrou-se das luzes da boate, também oscilantes. Das taças e copos cheios, em sua mão. Da dança frenética e desorganizada; mas, ainda assim, aceita. Dos beijos, muitos e aleatórios. Das amigas, lindas e superficiais. E, é claro, dos idiotas que deveria impressionar. Sorria a noite toda, como se não houvesse amanhã: alegria a qualquer custo.

Sempre que quisesse, teria vários amigos para sair. Bastaria uma convocação em alguma das redes sociais e muitos anunciariam a sua disponibilidade. Talvez, tivesse de fazer sorteio para escolher quem teria a honra.

Sorriu e encolheu-se ainda mais no sofá. Mas o sorriso foi gradativamente desfeito: um aperto no coração o empurrava. Aquela sensação e o medo, cada vez mais constantes, levaram-na ao cardiologista, dias atrás. Mas os exames não encontraram nada.  Recuperara sua tranquilidade, ainda que algo continuasse errado com o seu sorriso.

De repente, ouviu um barulho vindo de trás de si. Virou apenas a cabeça para examinar. A estante estava intacta, ainda cheia de livros que nunca leu. A grande mesa com apenas uma cadeira, continuava ostentando os pratos e talheres utilizados no jantar improvisado, que limparia no dia seguinte. O chão de madeira e as paredes brancas reluziam com cada novo relâmpago. Tudo parecia estar em ordem. Virou a cabeça novamente para a posição original.

A visão da mesa lembrara-lhe da utilidade que dera às outras cadeiras. Estavam todas em seu quarto, servindo de suporte para um cabideiro extra, pois seu guarda-roupa já não comportava todas as suas necessidades de vestuário. Essas extensões eram necessárias no mundo material. Em sua alma, entretanto, ocorria justamente o oposto.

Outro barulho, mais estrondoso, a fez levantar. Sentou-se no sofá, assustada, enquanto um frio dilacerante percorria o seu corpo. Olhou novamente para a mesa e, aterrorizada, notou que havia uma cadeira a mais, desde a última vez que olhara.

“Eu devo ter confundido”, pensou, tentando se tranquilizar.

Levantou-se e começou a andar em direção à escada que a levaria ao quarto. Nos primeiros degraus, ouviu o barulho da janela sendo aberta. A chuva finalmente vencera e, agora, inundava o chão de sua sala. Ignorou os sons e prosseguiu seu caminho.

Nos últimos degraus da escada, parou novamente. Da sala, ouviu o barulho de múltiplos passos, como se uma multidão percorresse a sala, pisando com força no chão de madeira. Outra vez, um arrepio intenso propagou-se em todo o seu ser. Já sem forças, deu mais dois passos, para concluir o lance de escadas e chegar ao corredor que levaria ao quarto.

Mas, em sua frente, no fim do corredor, viu a imagem grotesca de um fantasma. Era a sua própria imagem, com apenas 4 ou 5 anos de idade, incrivelmente mais pálida. Por mais aterrorizante que a imagem pudesse ser, havia algo de verdadeiro em seu sorriso.

A moça levou a mão ao coração. Ainda que vazio, estava disparado. Ao menos poderia atestar a sua existência. Nervosa, limitou-se a soltar um sorriso nervoso e a perguntar:

– Que brincadeira é essa?

– Você está sozinha agora – disse o fantasma. – Não precisa sorrir.

3 comentários:

Capeta Corujoso disse...

Arrepiei, sério.

Vinícius disse...

Essa é a Sofia, gente.
Obrigado, Sofia.
=)

Astréia disse...

Surpreendente e inusitado final! Um ótimo conto.

Gostei muito da sua visita e comentário em meu blog,obrigada. O layout do seu também é bem bonito.

Volte sempre que o vento de levar ou um poema te tocar. :)

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