domingo, 30 de janeiro de 2011

Admirável dialética nossa

“O mundo agora é estável.
As pessoas são felizes, têm o que desejam
e nunca desejam o que não podem ter.”
(Aldous Huxley, em 'Admirável Mundo Novo')

“E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer...”
(Zé Ramalho, em 'Admirável Gado Novo')

Um belo campo ensolarado brilhava em nossas mentes. E o verde vistoso da grama era recente, da chuva de algum ontem imediato. Embora o chão não estivesse molhado e o sol resplandecesse imponente em seu último brilho da tarde, a chuva tinha certa presença, ainda que simbólica. Algodões macios difundiam-se na imensidão azul do céu.

O capim alto alcançava a barriga do gado, encobrindo por completo suas patas. O resto do corpo dos animais permanecia exposto ao vento calmo daqueles dias. Em cada animal, um "preto, branco, preto, branco" indefinido. E, de fundo, a imensidão verde.

A comida era farta, naqueles tempos. E o sol não era desumano. Não era tempo de marcação, nem de procriação. A vacinação já não era mais necessária e as porteiras do curral estavam abertas. O córrego era logo ali. A vida era bela. E o povo, feliz.

– A gente sente uma sensação de eternidade, não é? – comentou Mimosa.

– Eu acho, com certeza, que isso é eterno sim. – respondeu Mocinha, com um sorriso grato.

De longe, um velho boi à beira da morte contemplava a cena. Não precisou ouvir o diálogo das fêmeas para saber sobre o quê todas mugiam. Era a vida. Lembrando do futuro, não teve dúvidas quanto à farsa. Davam-te tudo, para terem o que tirar.

Em breve, toda aquela engrenagem ruiria. Então, os misteriosos entes da História a substituiriam por uma nova. E, majestosa, se reestabeleceria a normalidade. Nas ruas, nas casas, nas igrejas, nos jornais. Uma ou outra perturbação isolada, apenas. Mas o macrossistema, intacto.

O velho boi ergueu lentamente sua cabeça. Sua visão debilitada já não distinguia tão bem os rostos de suas filhas. Percebia, contudo, a imaturidade do gado novo – os touros geneticamente perfeitos que só sabiam contemplar fêmeas. “Precisa-se envelhecer um pouco e perder alguns hormônios para se entender um pouco do mundo”, pensou. “Afinal, esse admirável mundo é sempre novo.”

Naquele exato momento, o dirigível de Noé cortou o céu.

Um comentário:

Lucas Moratelli disse...

A dor da impermanência do existir. O sofrimento de perder o que nunca possuiu. A beleza de entender que nada é eterno.

Mas um ótimo texto Vinícius.

"Naquele exato momento, o dirigível de Noé cortou o céu."

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