domingo, 19 de setembro de 2010

O artifício dos parênteses (I)

Ele arregalou os olhos. Não esperava aquele pedido.

– Os detalhes...? – hesitou.

– Claro, os detalhes. – confirmou o outro.

Estavam em uma sala escura. Não era possível enxergar as paredes ao redor deles, apenas escuridão. No meio, uma mesa simples, pequena, quadrada, de madeira. Rachaduras e sujeira se acumularam em sua superfície durante os anos. Uma lâmpada pendia do teto, por um fio quase indistinguível do breu generalizado. Ao redor da lâmpada, uma armação afunilada de alumínio que parecia direcionar a luz para o centro exato da mesa. Simples, mas perfeito.

– Talvez a perfeição seja a simplicidade. – proferiu uma voz feminina, vinda da escuridão.

A voz era suave, mas firme. O homem que pedia os detalhes também não pôde deixar de notar certa sensualidade, devido ao tom, às circunstâncias ou ao mistério de quem diz sem ser visto. Já o outro, ergueu seu par de olhos já arregalados e examinou a escuridão, afoito, na tentativa de localizar a fonte da voz.

– É o que estamos tentando descobrir. – afirmou o questionador, sorrindo de leve.

A mulher apenas balbuciou algo como “hum”. Depois, seguiu a familiar sensação de ansiedade e isolamento, comum aos dois homens.

– Pois bem, comece.

O outro levou a mão ao queixo. Quatro dedos acariciavam a barba, o polegar tocava a parte inferior do queixo, próxima ao pescoço. Aquela posição sempre o ajudara a organizar a ideias.

– Era um dia como qualquer outro, quando aconteceu. Muito rotineiro, comum, muito... exceto... bem... exceto pela chuva.

– A chuva nunca é rotineira.

– Às vezes é.

– Não, não é. A cada nova chuva, são novos os pingos que caem.

– Que seja. Mas aquela chuva era diferente, porque não caíam apenas pingos de água.

– O que mais caía?

– Pára-quedas cordiformes.

– Isso não me soa muito aerodinâmico.

– O amor não demanda nem lógica... Haveria de demandar aerodinâmica?

– Não sei, a história é sua. Mas... havia trovões?

– Não no início. Eles começaram a aparecer depois, com o advento das nuvens.

– Quanto tempo durou a queda dos pára-quedas?

– Eles caem até hoje.

– E como chovia, se só depois de certo tempo que vieram as nuvens?

– A chuva é um choro. Não vem das nuvens.

– Quem chora?

(...)

– Como foi?

– Cansativo. Perguntas demais. Você poderia fazer a gentileza de não me fazer perguntas por alguns minutos? Não suporto mais essa entonação de quero-mais, sabe?

– Sim, mas... por quê?

(...)

“Olhe-se sempre no espelho. É um exercício necessário. Tente se medir, se encontrar. Do amplo leque de possibilidades, fixe algumas no substrato da certeza. Elas serão seu guia – o único em que você pode confiar – de como se portar nesses outros (poucos) lugares em que não há espelhos.”, recitava mentalmente. Dera para ler livros de auto-ajuda, ultimamente. Auto-ajuda que só ajudava sua autodestruição gradativa e inevitável.

A solidão da mesa de madeira e da lâmpada que pendia do teto, o incansável questionamento do homem e a voz da desconhecida eram, agora, um conforto inacessível.

Leia a segunda parte dessa história aqui.

3 comentários:

suellen nara disse...

bom ler-te de novo.
adorei a metáfora da chuva.

pelo jeito vai ter continuaçao...

Geraldo Brito (Dado) disse...

Saudações e parabéns pelo blog!

Jamile Gonçalves disse...

vc é um grande pecador...
não se pode ter palavras tão lindas impublicadas!
Adoro tua “prosa poética”.
Adorei o texto e o comentário!...

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