sábado, 16 de janeiro de 2010

Alguns anos de solidão

Finalmente, voltei. E com algumas mudanças visíveis, eu diria. Muitas novidades, também. Uma nova vida a caminho, como dizem. Muitas ideias, poucos acentos. E, de início, um texto que demorou muito pra ficar pronto e publicável. Acho que perdi um pouco a prática. Enfim, boa leitura, caros leitores! - caso ainda me reste algum.

***

"Se você pretende ficar louco, fique sozinho."
Gabriel García Márquez

Poucas horas atrás, quando a Linda mulher olhava pela janela do apartamento, a rua parecia bem mais convidativa. Afinal, quem sente fome não desqualifica um sabor. Contudo, à medida que se saciava, percebia que poderiam existir muitos outros sabores. Por mais que evitasse a asfixia do apartamento, um dissabor insuportável, a escolha da rua implicara a renúncia do conforto. 

Àquela hora, bairros afastados não eram tão bem iluminados. Extremamente propícios para a ação de ladrões e estupradores. Mediante tal constatação, o arrepio que sentiu percorrer seu corpo foi até natural. O silêncio propagava-se no ar frio de depois da tempestade. E qualquer barulho vindo de trás chamava sua atenção. Linda percebia o preço de se estar livre: a condenação.

Seus lindos passos denotavam sua essência essencialmente irregular. Não por falta de linearidade nas conjugações, mas pela inexatidão que afligia sua existência.

– Duvide de tudo. – aconselharia o metódico filósofo.

– Me dê ao menos uma certeza. – imploraria a mulher.

Apesar de tudo, sentia-se só. E a acústica do apartamento ampliava o som da solidão. Na rua, entretanto, tudo se dispersava. As notas errantes não tinham mais obstáculos. Como uma seta em direção a um alvo, eis que a liberdade atingia até mesmo as tais notas.

Poucas horas atrás, quando Linda espiava a vida através de sua janela, sentira-se tentada a viver. Percorrer as ruas democráticas, respirar o filosófico ar e distribuir bons-dias diplomáticos. Como um artrópode, que não era, pretendia tecer a alta teia na estabilidade do chão.

Mas que estabilidade? E o terremoto que arrebentava o seu chão? Era preciso, na verdade, sair do epicentro. As extremidades eram a melhor opção. E nada mais extremo que passear sozinha na madrugada de uma grande e perigosa cidade.

De repente, a linda parou. Um barulho a fizera parar. Olhou atentamente ao seu redor. À direita, uma rua ampla e vazia. Depois da calçada, casas parecidas espremiam-se, lutando por espaço. À frente, um horizonte escuro e indefinido. À esquerda, um lote baldio abrigava uma sucessão ecológica que não tardaria a virar bosque. Bastante adequado às ações criminosas e...

– Com licença, senhora.

Uma mão surgiu em seu ombro. As pernas bambearam e o coração disparou, o sangue era irrigado com cada vez mais adrenalina. A boca abriu-se numa respiração forçada. E, lentamente, Linda virou o corpo em direção ao chamado.

Dois homens de terno preto fitavam-na compenetrados. Parado a alguns metros de distância, um carro de portas abertas aguardava seus passageiros. Linda falhou na tentativa de se comunicar.

– A senhora não sabe do toque de recolher? – perguntou o homem que ainda mantinha sua mão no ombro da mulher.

– Não, eu... sim... mas... – balbuciou em resposta.

– Como homens da Lei, é nosso dever garantir a ordem, senhora. – declarou, enfático. – Não podemos deixar que homens fantasiosos e idealistas demais tomem conta de todos nós, pois isso seria o caos. E o toque de recolher é apenas mais uma medida essencial para...

O homem parou subitamente. Parecia perceber a impropriedade de sua explicação, até mesmo em virtude da distância espiritual de Linda, que mais parecia nem ouvir.

– Nós a acompanharemos até sua casa. – disse, por fim, retirando a mão do ombro.

O percurso foi aquele velho conhecido. Sempre se tem de voltar ao seu inferno particular. Nenhuma Lindeza é capaz de nos tornar imunes. E nenhuma liberdade é eterna. Até mesmo a liberdade do policial calado – que sentou-se no banco de trás, ao lado de Linda – durou pouco. Foram apenas dez minutos de toques indiscretos. Vontade de um e submissão de outra dão nisso.

“Nenhuma liberdade é eterna”, pensou a mulher, quando entrava em casa. Seu pouco conhecimento filosófico, contudo, permitia uma série de contestações a essa frase. Mas não sentia vontade de contestar. O conformismo era mais cômodo. E o comodismo a que renunciara, estava em vias de recuperar. "É assim e pronto”, e girou a maçaneta.

A escuridão do apartamento só não era completa em virtude da luz da televisão. Naquele tom meio azulado, incidia diretamente nos olhos fixos de um homem de calção. Às vezes, ele parecia babar. Outras, fazia menção de sorrir – quando não gargalhava sem fazer menção alguma. Linda nunca o vira chorar. Mas, raramente, alguma sombra de tristeza perpassava pelos seus olhos vidrados. Seu marido só não era só: casara-se com a programação.

– Cheguei.

O aviso era inútil, mas Linda gostava de utopias. A rua utópica, a cidade utópica, o policial calado e utópico, a ordem e o governo utópicos, o marido utópico e ela mesma também. Um dia, até seu apartamento seria utópico. Afinal, há coisas que nunca mudam.

8 comentários:

Rhayanne ;* disse...

Belíssima narrativa, Vinícius .. De um jeito simples, tratou de assuntos complexoos .. *.* Adoreei .. :)

Marcelo A. disse...

Puxa, Vinícius, que bacana! Acredita que não faz muitos dias, estive por aqui e dei de cara com um aviso alertando que as atividades do blog estavam provisoriamente suspensas? É isso aí! Seja bem-vindo! Talentos como o seu fazem falta na Blogosfera! E que bom que chegou a tempo de comemorar com o "Diz", afinal, você faz parte dessa história! Desde o príncipio, aliás.

Abração e belo post, pra variar!

Michel Domenech disse...

Gostei do texto. Como dissesse, Sartre afirmou que o homem está condenado a ser livre. É admirável tal sentença de liberdade; contudo, não é de todo verdadeira, porquanto há diversos empecilhos espalhados visando podar nossos livres agir e pensar. Um abraço.

Pedro Antônio disse...

Ei, Vinícius!

Quanto tempo, hein!


Que nada! Você continua escrevendo tão bem como sempre! É isso aí! Vida nova, novos caminhos, dias mais felizes e com mais esperança!

Um abração!

Pedro Antônio

Filipe Garcia disse...

Oi Vinícius,

o estilo do seu texto me lembrou o de "Dostoievski" em "Crime e Castigo", trazendo as cenas sob a perspectiva de um personagem absorto em sentimentos e emoções muito conhecidos nossos. Suas palavras foram precisas, eu diria. Entender a liberdade sem contudo saber usá-la é como se prender a um quarto escuro, sabendo que lá dentro existe a chave.

Ontem mesmo eu lia: "a liberdade só é limitada pela própria liberdade", ou seja, tenho a minha desde que a sua também seja garantida. "Linda" vivia a liberdade dos outros, (re)buscando a própria até mesmo dentro do perigo (sentir medo também é escolha, liberdade).

Achei seu texto de uma sutileza ímpar. Creio que não captei todas as metáforas, mas ainda assim achei genial.

Um abraço!

Lucas Moratelli disse...

Fico feliz que tenha retomado.

É a eterna busca de si mesmo, de uma liberdade idealizada, do afastamento da própria realidade, neste caso, aparentemente chata e desestimulante. Existe um bocado de "Lind@s" no mundo, tem é pano pra manga.

Narrativa incrível!

Abraço Vinícius.

Jamile Gonçalves disse...

Olha quem tá de volta...
Toda vez que leio uma das suas obras de arte me sinto tão pequena! Tão utópica: quase como a 'Linda' do seu conto. Escreves perfeitamente bem.
Que bom que voltou!

Carlos Pegurski disse...

Muito bacana sua prosa, cara! Gosto muito dos recortes do cotidiano. Estilo atraente.

Postar um comentário

Rebusque sua opinião.