terça-feira, 12 de maio de 2009

O culto oculto

"Continua a comer teu milho alpiste.
Foi este mundo que me fez tão triste,
Foi a gaiola que te pôs assim!"
Augusto dos Anjos

Se nem mesmo o ar que respirava era confiável, por que as pessoas seriam? Era o que vinha argumentando, mentalmente, um garoto desajeitado, em seu caminho para a perdição. Seus passos irregulares eram espelhos da alma, se é que havia alma ali. É certo, porém, que não teria notado tal irregularidade, nem estaria argumentando inutilmente, se não estivesse acompanhado.

E a naturalidade dos companheiros era de impressionar. Cada pé pousava lentamente no chão, firmava por alguns instantes e tornava a alçar voo quando o outro tivesse pousado. Era uma das mais belas cooperações da natureza, pensou. Cada pé fazendo sua parte, para o andar perfeito. A verdadeira coesão social.

Sociedade, porém, era um termo distante. Por mais que o considerassem membro daquilo, o garoto não conhecia o verdadeiro significado de tal emaranhado de leis e normas de bom senso que regulamentavam as ações. Do riso mais bobo, ao concordar mais paciente, tudo parecia seguir ordens caóticas. Tivessem utilizado a física ou a matemática, e tudo sairia perfeito.

– Matemática é muito complexo! – ouvira sempre.

E discordara. Difícil era socializar. Muito mais complexo. Envolvia equações de resultados duplos, infinitos ou mesmo sem resultado algum. As explicações existiam, perfeitamente. Mas ninguém as encontrava. Faltava uma criança sagaz o suficiente para descobrir onde se esconderam as mais habilidosas amigas no esconde-esconde universal.

Caminhava tão absorto em tais pensamentos, que nem sentira o frescor do inverno que se anunciava. Frescor, naquele início de noite. Logo se tornaria frio latente, sabia ele. A lua lá ia com sua graça própria, toda gorda e alva. As nuvens pouco espessas eram uma espécie de maquiagem. Nada de artificialismo, contudo. Estampava-se na face do céu uma naturalidade contraditória.

Caminhemos... caminheeeemos...! – cantava um dos companheiros.

Aquele, quem sabe. Inspirava um tanto bom de confiança. Era tão estimado quanto a própria sombra do garoto desajeitado. Uma pena, porém, que não fosse o suficiente.

– Pel’amor-de-deus! – protestou um outro, escandaloso. – Música de corno, hoje, não! Hoje é só diversão, maluco!

O terceiro e último companheiro resolvera checar a disposição do garoto desajeitado, que involuntariamente caminhava um pouco mais lento que os outros. Com a percepção de seu desgaste, acabou por esboçar um sorriso irônico.

– E aí, maluco? É hoje, né?

O garoto tentou sorrir também. O resultado obtido, porém, foram poucos segundos de um sorriso mudo e forçado.

Lá pela décima nota da canção, os companheiros pararam. Estavam em frente a uma casa antiga, mas ampla. A iluminação precária escondia bem um segurança robusto, que aguardava os visitantes no pequeno portão.

Entraram. E o que viram então foi ilógico. As equações descritivas entraram em colapso. O sistema binário de orientação espaço-temporal encrencou e a vida parou.

Não foram apenas visões. Foram risos, guizos, ou algo próximo. Contatos, espasmos, arrepios, convulsões. Movimentos simétricos, equacionados. Movimentos caóticos. Harmonia e desorganização. Cabelos, seios e tudo mais. A perfeita imperfeição.

Apesar das aparentes contradições, naquela casa coube disso tudo e mais um pouco. Couberam inefabilidades. Ademais, é impossível expressar o expresso.

8 comentários:

Lucas Moratelli disse...

Que bom que está de volta. :)
_

Em alguns momentos me identifiquei com este ser - talvez não por vontade própria - anti-social.

Os passos mal dados, o desajeito, enfim...

Foi a não vontade ou o medo de chegar que o deixou tão deslocado?

Adoro esses seu finais.

Texto ótimo Vinícius, ótimo.

Abraço.

Jamile Gonçalves disse...

Nunca mais passei por aqui... Nem por cá...
Enfim, lembrou-me o texto Pluft, o fantasminha. o.O
aahauhauauhua
Creio ser assim que se dão as orgias mentais. Quando misturam-se pensamentos divergentes numa ação impraticável. Um orgasmo de vazio. Um bordel [?] deslocado.

Michel Domenech disse...

Como sempre, muito bem escrito o texto!
A matemática é complicada,dizem, pois exige que se pense, o mesmo não ocorre na vida social, onde tudo é condicionamento e dispensa-se o questionamento.
Pelo visto o garoto estava um pouco incerto quanto à ida a tal recinto, porém para integrar e ser bem visto pelo grupo ele pouco ou nada questionou. Isso que é o triste em nosso mundo, uma submissão até mesmo aos supostos amigos. Um abraço, cara, grande texto, vale a pena ressaltar.

Lari. disse...

Muito bom texto! Gosto dos que me fazem pensar, visualizar.

A matemática apresenta para uns a complexidade que, creio eu, a vida apresenta para todos. Alguns a vivem com maior naturalidade ou com menor receio, mas todos tropeçam no caminho. A vida surpreende a todos e de maneiras diferentes, o que a torna ainda mais surpreendente.

Quanto à confiar nas pessoas ou entender o conceito de sociedade... Bom, acho que nos ensinam demais os conceitos que não condizem com a realidade. Nossa sociedade não é caracterizada por uma atmosfera social e confiar é algo que devemos fazer com um pé atrás... Vai entender!

Astréia disse...

Olá vinícius!

Te indiquei ao selo" Olha que blog maneiro".

Abraço!

Marcelo A. disse...

Cara, por isso que sou seu fã...

Tava aqui, imaginando nitidamente as cenas. E o final? "Os cabelos, os seios e tudo mais"? Rsrsrsrs!

É, Vinícius. Você é o cara! Só precisar postar mais (nós agradecemos). Sumiu porque, rapaz?

Apareça...

Yuri Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Yuri Alves disse...

Olá vinicius-kun.

Gostei bastante deste texto, principalmente da personalidade do garoto de passos irregulares.

Notavelmente adorei esta passagem:
"Entraram. E o que viram então foi ilógico. As equações descritivas entraram em colapso. O sistema binário de orientação espaço-temporal encrencou e a vida parou."

Notei aqui que o garoto entrara em um lugar que não frequentava muito. Um lugar confuso para ele. Onde o comum eram as equações sociais.

E Como ele mesmo dissera: Difícil era socializar. Muito mais complexo.

^^

Postar um comentário

Rebusque sua opinião.