domingo, 12 de abril de 2009

Nas curvas do espaço-tempo

“Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!
Augusto dos Anjos

Vidas de outros tempos vinham agora em sua leve mente. De fogueiras agitadas, vozes enfáticas, o brilho lunar e a figura simpática do avô, o grande contador de histórias a quem nunca conhecera. Entre barbas, asas, fogo e sombras, caminhava pela rua povoada de vultos.

Hora imprópria para passeios. Pela falta daquele outro hábito do tempo, a noite; e pelos perigos da negra dama. Mas se os homens se importassem com a impropriedade de suas horas, não refletiriam no banheiro. E a Humanidade perderia revoluções monumentais.

Imprópria que fosse a hora ou não, o certo é que fazia frio. E o ar parecia ainda mais gélido quando caminhava próximo ao capinzal daquela área – supostamente – desabitada. O murmúrio dos insetos ecoava incessante e feliz. Talvez recordassem dos assovios simpáticos do trem diurno. Ou ainda, gostassem do aconchego do frio e do medo.

Encontrou um casal lento e monótono. A mulher, baixa, apoiava-se no suposto marido. Ele, por sua vez, arrastava ambos calçada afora, atritando os chinelos no chão. As feições apagadas e distantes. A iluminação desfocada.

E de repente uma luz se apagava. O caminho ficava ainda mais deserto, os insetos ainda mais ruidosos, o frio ainda mais frio. A vida mais densa, como o ar. A Lua sumia no céu desestrelado.

Forçosamente, tornava a se lembrar da fogueira. Não como um refúgio, mas como uma coincidência inevitável. As risadas dos pais e tios, acompanhadas da seriedade e auto-orgulho do contador de histórias, formavam em sua mente uma cena que nunca vira antes. E que aconchego, aquele, da fazenda iluminada!

A rua, não menos hospitaleira. O cheiro do mato, cada vez mais presente, indicava uma ou outra proximidade com suas lembranças rurais. Daí talvez a coincidência. Ou quem sabe até do próprio frio, que lembrava o calor do fogo de outrora.

O caminho seguiu-se normal. Por vezes, encontrava gente. Avistou um homem de cabelos longos e rebeldes, à moda cristã. Uma bela e vulgar mulher rebolava sozinha, destemida, em seu andar capcioso. Um jovem, em seu gingado moderno, exalava um perfume barato, sozinho, em sua ansiedade pela noitada. Outras vezes, via até vultos. Principalmente de dentro do capinzal.

Não demorou muito, reencontrou o casal monótono. Não sabia como – se andava em círculos ou não – mas o reviu. Não fazia idéia de onde tinha estado, e foi então que tratou de pegar o rumo para casa. Quanto ao casal, tudo na mesma mesmice.

Ainda havia um longo caminho a percorrer. E os vaga-lumes, sabia ele, apenas apareceriam ao final, quando já fossem desnecessários. Tratava-se do variado repertório de omissões animais.

Mas, durante o caminho, de conforto, só restava o medo.

– Não estou com medo.

Não estava.

9 comentários:

Flor disse...

Adorei a poesia,verso,trocadilho,rs!beijos.

Marcelo A. disse...

E aí, Vinícius? Tudo certo?

É, cara... Depois de uma certa idade, os ovos escasseam mesmo. Hoje em dia, eu mais dou do que recebo. Não tenho filhos, nem sobrinhos; no entanto, há uma multidão de afilhados, e aí, já viu, né? Em ocasiões como essa, não tem jeito... Criança curte esse tipo de coisa!

Também curto esses momentos de reunião familiar. Sempre rende bons momentos!

Agora, em relação ao seu texto... A figura do homem caminhando na noite, o encontro com os habitantes da "negra dama"...Perfeito, como sempre!

Abração pra você, meu caro! E não suma...

Fabioc disse...

Não canso de dizer que vc tem talento. É impressionante seu domínio das palavras, a forma como prende a atenção do seu leitor...

Gosto da forma como vc se prende a detalhes e faz minha imaginação fluir levemente. Parece q era eu quem caminhava por aí e observava esse mundo detalhado por suas palavras.
A frase final é bem interpretativa
"não estou com medo"
As vezes não sentir medo algum é algo q da medo...bem complexo isso
Percebo que 2009 vai ser o ano que você mais vai postar aqui no blog, é bom ver isso... Bom saber que os anos passam e mais vc se dedica a esse espaço q é seu, um pedaço de vc na internet

Até mais

Lucas Moratelli disse...

O andar calmo e sem medo pelo desconhecido tornando-o conhecido e aconchegante a cada passo é uma dádiva da imaginação humana.

Em um caminho escuro e frio, nada mais simples e funcional que lembrar o calor e dos bons momentos de uma fogueira. Assim como em momentos de tristeza, nada mais sábio que lembrar e/ou imaginar bons tempos.

Não sei se pela repetição da imagem do casal esses vultos se configurem como esquizofrenia, se sim, vejo-os fazendo referência a fantasmas do passado.
A vida fértil de uma mente recheada de lembranças, desilusões e "não mais".

Todos nós fazemos nossos passeios noturnos diariamente, criamos nossos fantasmas e nossos consolos.

É incrível o que você faz com palavras Vinícius.

Abraço.

Lu Paes disse...

Olá, Vinicíus!
Agradeço muitissíssímo a compreensão! Minhas férias foram necessárias, não tinha tempo nem para respirar!
E, quando finalmente tive tempo, estava na fazenda. Lá nem celular funciona, que dirá internet!
hehehe

Seu blog é tão perfeito quanto no dia em que o vi pela primeira vez.
Seus textos tem sua marca registrada (e rebuscada, como a sua consciência).
O que me lembra: indiquei seu blog para a Fezoca, minha professora de Leitura e Produção de Texto (LPT).
Ela gosta de pensamento crítico, língua afiada, textos bem falados, idéias que fogem do senso comum. E ela gosta de passear por blogs à procura de textos bons. Achei que o seu blog era perfeito.
Não sei se ela já teve tempo de visitar, mas ela me disse que iria.

Beijos da Lu Paes!

Pedro Antônio disse...

Oi, Vinícius!

Lindo demais o poema da Cora Coralina! Lindo! Você acertou em cheio!

O seu texto também está demais! Você realmente escreve muito bem!

Acho que nunca é tarde para desejar uma feliz Páscoa! Portanto, feliz Páscoa! Renove-se! Renasça!

Abração.

Te espero por lá! Sempre.

Pedro Antônio

Bruno Abreu disse...

Talvez o frio da rua pacata, a estranheza do casal arrastando chinelos como dois velhos acanhados, as sombras esquivas e indefinidas no capinzal, fosse tudo isso ele mesmo. Projetando sua falta de rumo no que lhe é externo - talvez pra constatar que não era só ele que andava em círculos... Há uma atmosfera de intensa estagnação (insetos gritando nos meus ouvidos), de contraste entre a sua verdade e as mentira nada convincente que ele tenta impor para si mesmo. A mentira que é omitir suas misérias, enquanto recria na imaginação as histórias de tempos em que só havia o calor da fogueira, afugentando assim a rua fria.

Pra depois dizer que não tem medo...

E agora eu fui ler um comentário acima e encontrei uma interpretação que diverge bastante da minha. Acho isso tão legal!

Michel Domenech disse...

Cara, que texto excelente, adorei a sutileza da colocação das palavras, ademais, esse trecho foi demais: "Mas se os homens se importassem com a impropriedade de suas horas, não refletiriam no banheiro. E a Humanidade perderia revoluções monumentais.".
É interessante sair à noite e ver as pessoas perambulando pelas ruas, muitas realmente sem rostos como dissesse, pois são momentos tão propícias a imergir em pensamentos que mal damos a devida atenção a que nos circunda.

Alam Oliveira disse...

Sem dúvidas os detalhes de sua escrita é fundamental para a complexidade de seus textos.

Queria desculpar-me pelo tempo que passei sem comentar aqui, é que estive viajando por um tempo, ja estava com saudades de ler os seus ótimos textos e de outros blogueiros os quais acompanho o trabalho!

Abração e sucesso com este espaço!

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