domingo, 22 de fevereiro de 2009

A ventura insana

"Louco! Feliz talvez! quem sabe se a ventura não é a insânia?"
Álvares de Azevedo


O passo era apressado: apesar de o dentista não ficar tão longe, meu atraso já rendia uns dez minutos. E se a espera às vezes era longa na pontualidade, haveria de ser maior na fatalidade de um atraso.

Atravessava as ruas adoidado, mal olhando os carros. A última vez que o fizera, quase fui atropelado por uma carroça. Desta vez que vos narro, porém, tive a sorte de não encontrar nenhuma pelo caminho. Prova do Progresso de minha cidade!

Mas foi quando eu passava na porta de um prostíbulo, ouvindo tal ou qual comentário acerca de uma nova remessa das boas, que me deparei com aquela silhueta gigante que povoara meus pesadelos de menino.

Lá vinha ele, com uma bermuda curta, escura e ligeiramente listrada. Dispensara a camisa há anos. Seus cabelos eram curtos e cacheados, de um loiro sujo. Os pés descalços, a estatura enorme, a barriga mais enorme ainda.

Era mais um doido da esquina, homem do saco, cadeirudo ou qualquer outra nomenclatura adequada ao recurso educacional mais utilizado pelas mães: a ameaça. No tempo de eu menino, bastava um aviso de sua chegada para que nós meninos corrêssemos para casa. E ainda tínhamos de torcer para que ele não resolvesse entrar e abrir a torneira do jardim. Ou pior: pedir café às nossas mães.

– Café! Qué café! Café! Café! – ecoava sua voz meio fanha, pela debilidade mental.

Mas mais tenebroso que o pedido fatal era a risada mortífera. Ressoava por quarteirões de tempo e distância. Ria por um minuto, sua voz ecoava por dois. E todos nós meninos visualizávamos, primorosamente, aqueles dentes brilhantes de perigo acompanhando o som de trovão.

Ali, em frente ao prostíbulo, não me botou em saco nenhum. Daria muito trabalho arrumar um que me coubesse, apesar de minha magreza. Além disso, suas mãos estavam ocupadas com uma linda bacia vermelha.

Passou direto e eu também. Só não se esqueceu de rir. Riu de mim, de todos nós meninos. Era um desdém tão sarcástico que arranhava o espírito. Praticamente nos declarava idiotas.

Mas esbanjava alegria, afinal. Era um doido alegre. Ou um alegre doido. Muito mais alegre que muitos de nós, meninos ou não. De fato, terminei o dia mentalizando as loucas risadas daquele feliz.

14 comentários:

Groo disse...

Você escreve bem. Me fez lembrar de uma passagem da minha infância, onde também havia um "velho" que "prendia as crianças".

- Se você não for um bom menino,vou chamar "o velho".

Até desviava de rua...rsss

Parabéns e obrigado por me relembrar algumas passagens de um tempo que não volta mais!

abs

Jessie. disse...

nossa, adorei o texto!
pode parecer um comentário vazio mas falo sinceramente: você usa as palavras belissimamente!
estou seguindo o blog e voltarei a visitá-lo!

____
http://sucha-small-world.blogspot.com/

Pedro Antônio disse...

Oi, Vinícius!

Que prazer receber a sua visita! Fiquei muito feliz ao saber que vai acompanhar meu blog. Eu também já sou um seguidor do seu! Parabéns! Os textos são muito bons, de alto nível! Você vai longe, garoto! Tenho certeza disso! Continue neste caminho!Ah!... sobre os cansaços da vida e sobre a busca pelo amor verdadeiro, concordo com tudo! A vida é assim mesmo! É preciso coragem para não desistir no meio do caminho sem antes encontrar a paz e a felicidade que tanto desejamos. Um abração!

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA -
www.atorremagica.blogspot.com

Fabioc disse...

Existem coisas que nascem na infância e nos acompanham eternamente...Algumas lendas, medos e incertezas que insistem em perseguir nossa mente, não importa o nível em que ela esteja. Mais uma vez um belo texto, ainda aprendo com vc a arte de expressar mtas coisas em poucas palavras.

Abraço

http://clubedocamaleao.blogspot.com/

Lu Paes disse...

Muito lindo seu texto. Achei, como sempre acho, maravilhosamente poético - afinal, esse é seu jeito de escrever, pelo que notei. Poético.
Acho que é bom ser doido e ser louco. Nem que seja por um momento - isso traz uma alegria, um sentimento de plenitude, algo incomparável.
E eu também estou aproveitando o feriado para ler. É a melhor coisa que posso fazer...hehe
Ah, e eu também não acho que você seja uma garota à espera do príncipe encantado. Você realmente se decepcionaria com Crepúsculo. ^^

Beijos da
Lu Paes

ps.: Bom Carnaval, se voc~e gosta! Ah, notei que você viu o blog do Pedro..A Torre Mágica. Eu adoro ele, uma das pessoas mais legais que já conheci. ^^

Bruno Abreu disse...

Gostei demais dos seus textos, a maioria me prendeu bastante - e olha que já fui longe nos arquivos do blog!

Só não acho interessante quando você usa o verbo rebuscar no sentido de excessivo requinte... o texto fica um tanto quanto forçado - não ia entrar nesse detalhe, mas tentei seguir suas recomendações feitas no texto do protesto.

Mas que você escreve bem pra caramba, isso é incontestável. Fico mesmo impressionado com seu vocabulário e sua capacidade pra narrar e descrever, além da preocupação com a gramática.

Prometo que venho sempre aqui!

Bruno Abreu disse...

É... a Lílian é foda. Olha, acho que ficou meio generalizada a minha observação sobre rebuscamentos excessivos. A maioria não tem isso não. Pelo contrário, você enfatiza o estilo e o buscar novamente, como disse.

Lucas Moratelli disse...

Uma carroça?
Há quanto tempo não vejo uma.

Quando eu era pequeno o medo no meu bairro era de um mendigo de diziam ser assassino. Até hoje a lenda existe, já o mendigo foi atropelado por um caminhão.

É divertido rever referências do passado. Um homem que lhe causou medo na infância hoje é visto como um simples (ou complexo, que seja) doido alegre. Como será visto ele daqui a uns dez anos?

Ótimo texto Vinícius!
Abraço.

Alam Oliveira disse...

Ultimamente a coisa que mais faço e sorrir, parece idiota isto, mas estava pensando comigo mesmo e há algum tempo como serio bom se todos fossem doidos, ou alegres porque aí ninguém ia reparar se você está rindo sozinho ou falando sozinho... pq aí ao invés de criticar-nos - os doidos, se juntariam conosco em nossa insanidade!

Adorei o texto!
Está de Parabéns!

Tem texto novo no Revolução 29

http://revolucao29.blogspot.com/

Jamile Gonçalves disse...

"Prova do Progresso de minha cidade!"
É interessante analisar o significado pessoal da palavra progresso através das gerações. Há alguns anos atrás, carroça severia ser sinônimo de evolução! :p
Mais uma vez, repito: sua escrita é formidável, suas idéias são únicas!

Jamile Gonçalves disse...

Esqueci de dizer: o texto retrata de forma única um dos maiores pesadelos de quase toda criança! Esse homem do saco, aiai... rs

kacau disse...

Vc sempre me surpreende a cada texto e cada texto com garra e afinco, esse post me lembrou e muito os livros de Jorge Amado, uma caracteristica marcante sabia? bjs

http://messnatural.blogspot.com/

Marcelo A. disse...

Engraçado... Esses doidos são meio universais, né? Aqui no meu bairro também existem alguns. E devo confessar que, quando moleque, eu morria de medo deles! Hoje, a maioria sumiu... Ou talvez eu é que não tenha andado muito na rua pra vê-los!
Bem, elogiar seu blog é chover no molhado, né?

Abração!

Suellen Nara disse...

Esse doido feliz seria o tal do Homem do Saco?
Aquele que apavorava as criancinhas só de ouvirem falar?
Com certeza ele tinha motivos de sobra para rir, se é que um dia ele existiu, pois o unico homem do saco que vi até hoje foi o papai noel, e ele era genérico.

Aqui no meu bairro, sempre teve um ou outro doido varrido desses que todos conhecem mas não sabem nada dele e, do nada, eles desaparecem e viram lenda.

Legal o texto.

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