sábado, 28 de fevereiro de 2009

Um Olhar

Júlio contemplava os olhos de Márcia. Olhos sempre mornos e quietos. Não que o tempo – que nem passara direito – tenha levado suas primeiras agitações, mas que a vida – mesmo curta – os tenha acalmado. Por força da gravidade – física ou social – frequentemente miravam o chão, em toda a sua eloquência.

O falar leve, cauteloso, o mexer-se vagaroso e o vagar harmonioso. Os pensamentos distantes, em outros campos. A vida que passa, mas não anda. Porque a vida que anda ficou.

Em outros tempos – eras, talvez – fora bóia-fria. E também – quisera a fatalidade – a bóia-quente de seu pai. Não que este fosse mau ou louco. Tratava-se das necessidades de um viúvo ativo.

Mais recentemente, enfrentara um perigo maior: a cidade grande. Lugar inóspito aos ingênuos, adequado aos inteligentes. Adequado a um certo advogado, por exemplo, que dispondo da confiança da moça, tratara de encaminhá-la na vida. E encaminhou, ao mostrar o caminho da rua.

Meses antes daquela significativa troca de olhares e da discussão que viria, sentada nas escadarias da igreja de um santo qualquer, com as mãos estendidas ao alto, como a provar o gosto da chuva, recebera sua moeda da sorte: a de Júlio.

E exatamente em julho deixava-se contemplar. Este era o mais novo dever da moça. E o mais novo passatempo favorito do rapaz.

– Mais cedo tava passanu uma reportage nu jornal sobre a pena de morte dus Estado Unido. – proferiu ela, após minutos de silêncio.

– Ah, é. Eu discordo disso... – comentou Júlio, aborrecido pelo fim de seu deleite.

– Discorda? – tornou ela, perplexa. – Mais é por causa dessas coisa que us Estado Unido vai pra frente e o Brasil não!

– Acontece que é um método muito suscetível a injustiças, Márcia. Imagine se o preso é inocente... Nunca poderá haver reparo...

– E pois os bandido não deve pagá pelo que faiz? A gente temos que ser duro nessas coisa, se não o país não vai pra frente!

– Mas há outras formas, igualmente justas, de se fazer justiça...

Nu Brasil?

E riu. Riu como nunca Júlio a vira rir antes. Nem depois. Pela primeira vez, e única em suas eternidades felizes, aqueles olhos remexeram-se desordenadamente, acompanhando o movimento da mandíbula e do pescoço. Para, minutos após o deleite irônico, repousarem em sua inocência juvenil.

19 comentários:

palavras ao vento disse...

as um olhar pode dizer mais ..que muitas palavras....

http://verdadesentrementiras.blogspot.com/

Marcelo Giovanni disse...

bonzinnho teo blog...

http://coisasnaouteis.blogspot.com/

Canto do Lufa disse...

Mto bem escrito!

Vinícius de R. Rodovalho disse...

Aiai...

revolucao29 disse...

Poxa vida, será que este povo que está comentando pelo menos leu alguma linha?

Porque a vida que anda ficou? Redundante, mas interessante!

E nem sempre a cidade grande é lugar para os inteligentes, graças a Deus os ingênuos do interior têm um nível de conhecimento, talvez, maior ou simplesmente igual aos sábios da cidade, e o mais importante, no interior de quem ficou ouve-se e se faz o que os velhos e inteligentes aconselham!

Mas será que há esta forma justa NU BRASIL???

Muito bom seu texto!

Michel Domenech disse...

Às vezes, constante infortúnios tornam as pessoas praticamente indirentes à vida e aos demais, foi o que a tua personagem me pareceu ser (posso estar equivocado hehehe mera interpretação =]), felizmente há sempre alguém que acaba trazendo tais pessoas de volta à vida, saindo da mera existência, e isso muitas vezes deixa de acontecer pois faltam mais trocas de olhares, estas que principiam quase tudo, desde as mais intensas amizades aos ódios mais atrozes. Abraço, ótimo texto, meu caro.

Pedro Antônio disse...

"Há quem viva e há quem exista, apenas." Fantástica a sua frase! Acertou na mosca. (rsrs)

Muito obrigado pela visita e pelos comentários. O seu texto, como sempre, ótimo! Abordou, com poesia, um tema polêmico: a pena de morte. E você, o que pensa a respeito? (rsrsrsrs) Eu penso muita coisa... Depois me conte.

Abração.

Pedro Antônio - A TORRE MÁGICA - www.atorremagica.blogspot.com

Suellen Nara disse...

"Olhos sempre mornos e quietos..."
Não dá pra imaginar que a tal da Márcia falaria algo tão "rasgante" sobre pena de morte.

Realmente, muitas pessoas só sabem falar assim: "Por isso que o Brasil não vai pra frente!" Mas não sabem nem porque estão falando isso.
Quanta inocência...

Ah, e infeliz é o blogueiro que faz comentários vazios como os de cima.
Paciência.

Abraço.

Marcelo A. disse...

Engraçado... seu "estilo", às vezes, me lembra o Raduan Nassar...

Não acho que a Márcia seja tão indiferente assim, como comentaram aí em cima. Por detrás dos seus olhos mornos e quietos, dos pensamentos sempre vagando em outros campos, existia uma mulher com uma opinião formada. Ou que formaram por ela, como queira. O fato é que ela crê naquilo e acha mesmo que é por essas e outras que o país não vai pra frente.

Evidente que não concordo com ela em relação à pena de morte. Agora, numa coisa eu devo dar a mão a palmatória - "Nu Brasil"? Justo nu Brasil, onde tudo acaba em carnaval...?

Bom restinho de domingo!

Mauro Oliveira disse...

ótimo gostei...
seus textos são inspiração!
Parabéns!

Lucas Moratelli disse...

"bonzinnho teo blog..."

Eita!

_
Eu simpatizo com essa figura interiorana feminina, talvez por ter lido e gostado de "A hora da estrela".

Gostei do início do texto. Você descreve os personagens, a situação e os sentimentos sutil e maravilhosamente!

A conversa é que me assusta um pouco. Eu acredito que a intenção era demonstrar certa quantidade de "inteligência" em Márcia, a ponto de ela saber que no Brasil não há justiça. Isso foi demonstrado, porém pessoalmente eu não gosto de pessoas que se fecham em suas opiniões não dando espaço para outros argumentos. Esse riso é fatal em conversas sobre assuntos não engraçados, ele denota superioridade (mesmo quando essa não existe) a quem o emite, tornando-o o “certo” da situação.

Odeio esse tipo de ironia.

Gostei do texto Vinícius.

Serena disse...

Márcia esta totalmente errada? não sei as vezes, talvez Júlio tenha percebido que naquele olhar juvenil havia maturidade no que ela estava falando.


http://messnatural.blogspot.com/

Tainá da Rua Morgue disse...

Incomodou muito a oposição de ingênuo e inteligente.
E acrescento que a cidade grande é inóspita para seres vivos.

"E exatamente em julho deixava-se contemplar." Legal!

Indo agora para o tema do assunto deles, me assusto com tanta bobagem. Quero dizer, se fala pena de morte com tanta naturalidade! Aliás, se fala de punição com tanta naturalidade! Vingança como forma de justiça... "servir de exemplo". Adoro arte em forma de horror, mas quando é real e em movimento me apavora.

Lu Paes disse...

Oi, Vinicíus!
Desculpe a demora para responder...fiquei sem computador por uns dias...:/

Olha, 'A Cabana' é um livro que eu recomendo. Acho que você iria gostar..não sei porque você em especial. Mas é.

E seu texto é lindo!
O jeito como você critica, sem ser direto, mas fazendo notar seu ponto de vista...Me lembra alguns comentários feitos pela minha professora em relação à Machado de Assis.
Achei seu texto maravilhosamente bem escrito. Perfeito.
^^

Você já pensou em escrever um livro?

Beijos da Lu Paes!

Lu Paes disse...

Oi, Vinicíus!
Desculpe a demora para responder...fiquei sem computador por uns dias...:/

Olha, 'A Cabana' é um livro que eu recomendo. Acho que você iria gostar..não sei porque você em especial. Mas é.

E seu texto é lindo!
O jeito como você critica, sem ser direto, mas fazendo notar seu ponto de vista...Me lembra alguns comentários feitos pela minha professora em relação à Machado de Assis.
Achei seu texto maravilhosamente bem escrito. Perfeito.
^^

Você já pensou em escrever um livro?

Beijos da Lu Paes!

BóRiO...Que segue! disse...

Incrivel seu bloG brother! Voltarei + vezes! Abraço!^^

Bruno Abreu disse...

ei, desculpa ter demorado, mas vim. Júlio e Márcia, acho, são mais um casal de perdidos no mundo... os argumentos tão limitados (dos dois), o jeito como ela ri da cara dele, supostamente mais inteligente, passam a sensação de total falta de rumo.

olha, li o comentário do Lucas Moratelli, sinto algo parecido. Depois de A Hora da Estrela, o tanto de Macabéas que enxerguei... Vejo a "figura interiorana feminina", agora, pelo ângulo da Clarice. São Macabéas.

só não suporto, também, esse tipo de ironia da Márcia.

abraços!

Cleves disse...

Caro Vinícius...
Desculpe a crueza das palavras e a falta de tato, mas... "vc escreve bem pra cacete...!"
Vc é um exemplo a ser observado nesta juventude tão fútil e desnorteada.. fico feliz por pessoas com sensibilidade e articulação como vc possa fazer do ato de escrever um exercício diário.. diário e solitário... e felizes somos nós que podemos compartilhar de suas idéias e criatividade... e parabéns.. continue lendo e escrevendo... pois o nosso país se faz com homens e livros (como já dizia alguém..) pois ...

De fato existe
Um tom mais leve
Na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas
Que fitar...

Um abraço do amigo e professor

Fabioc disse...

pois é lembrei da Hora da Estrela agora, se bem que sua personagem é diferente, mais autêntica e decidida, só o contexto é parecido...

achei o julio um bobalhão por rir dela...ela só se comunica assim pq foi assim q aprendeu, mas quem disse q é errado?

é uma quesão para se rabuscar

"teu blog é bonzinho" foi foda hahahahahahha
esses piás da internet

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