sábado, 3 de janeiro de 2009

Clave de Sol e Chuva


Levemente inspirado em “Dom Casmurro”,
do mestre-perpétuo Machado de Assis.

Tenho tentado me lembrar das passadas – o agradável som da infância. Ela usava – só para se fazer notar – uma daquelas sandálias rasteiras de madeira, que ao tocarem o chão, durante sua correria até a venda da esquina, produziam tais ondas sonoras de longo alcance que se difratavam para tão bem chegarem aos meus ouvidos. Ficava a expectativa – que dava , de esperar – se aquelas passadas a guiariam para a venda ou – e o meu coração acelerava com essa possibilidade – para a minha casa.

Taque, taque, taque, taque...

Uma vez ela veio. Precisava de ajuda com a prova do dia seguinte. Sim, éramos colegas de escola. Só não éramos da mesma sala, mas a série e os professores eram os mesmos. E eu podia ajudá-la com os estudos: entendia (quase) tudo de matemática. Acontece que todos aqueles cálculos precisavam ser vistos de perto pelo aluno e pelo professor. Não dispúnhamos de quadro-negro; o jeito foi nos aproximar um do outro e nos atentar para as equações no papel bem a nossa frente. Mas – sei lá – as incógnitas do lado pareciam bem mais intrigantes que os Mistérios da Humanidade: o legado dos Astecas, os segredos de e a real intenção de Alexandre, o Grande.

Adultos, conservamos o gosto pelas equações. E ela sempre estava disposta a calcular comigo nas horas vagas. Não nos casamos, apenas passamos a morar juntos. E gostávamos de cada pedacinho um do outro. Das manias, dos descuidos, dos cuidados e das brincadeiras. E as passadas, mesmo que se fizessem ouvir bem na hora do trabalho, em casa, arrancavam de mim aquele sorriso – o da infância.
– Que calor, hein? – comentou ela, certo dia.
– É o nosso amor esquentando o mundo – eu expliquei.
– E será que todo esse amor serve pra arranjar um pouco de chuva? – brincou ela.
Como eu era patético, com aquelas explicações. E que fique claro que essa, do aquecimento global, não foi a única. Mas como a própria idiotice da frase expressa, aquilo tudo era o amor. Ela apenas sorria, para depois continuar as famosas passadas que a mim; a mim tanto alegravam.

Taque, taque, taque...

Costumávamos ir ao parque, religiosamente, nos domingos. Era a melhor maneira – segundo ambos os corações – de se descansar. Aquele momento que passávamos juntos compensava toda a semana de trabalho. Ou quem sabe possa ser mais ambicioso e dizer que compensava toda a vida. Cresceu junto a nós a paixão pela natureza e apenas aquela brisa, aquele murmúrio dos insetos, aquela sinfonia ornítica e as folhas secas no chão eram capazes de apaziguar nossas mentes.
Um dia, porém, uma bela ave atraiu a atenção da amada. Talvez tenha sido o canto – eu não sei cantar. Quem sabe tenha sido a plumagem – a minha não é tão bela assim. Pode ter sido a paciência – a minha já é curta. Ou quem sabe a alma.
E a partir de então, não mais se filosofa na fabulosa vida dos domingos.

Não que ela lamentasse as qualidades da ave que não tenho – não lamentava nada. Nem chegou a comentar. Mas há situações que dispensam comentários. E o que sucedia estava claro para quem se prestasse a observar. A ave despertou na moça das passadas o senso de aventura que eu não fora capaz de manter. E o calor nunca mais foi o mesmo.
– Quanta chuva, hein? – comentou ela, numa tarde de dezembro.
– É o que o nosso amor trouxe – respondi, convicto. – Assim como você queria.
Aquilo gelou o nosso sol. Sol frio, uma verdadeira Guerra Fria. Nenhuma explicação, nenhuma relação direta. Até mesmo os conflitos indiretos faltavam – aquele foi o único.

Pois que hoje me arrependo daquela insinuação. Afinal, quem sabe ela esquecesse a ave dali a alguns dias? Diante daquela frase, contudo, seria um tanto mais difícil. É que a imagem de uma desconfiança alheia pode ter mais força que a de uma desonestidade própria.
A vida, a essa altura, é um desgaste contínuo. Eu trabalhando muito, as passadas cada vez mais leves, os cuidados e os descuidos menos espontâneos e os domingos no parque sempre reavivando o fantasma daquela ave.
Apesar de tudo, ; longe ainda mora uma esperança.

Taque...

Ah, se se pudesse recuperar agora a infância! Trazer de volta, para a realidade, as minhas reminiscências perdidas... Quem sabe o ritmo da vida mudasse e as cores fossem menos frias... Quem sabe – até mesmo – os sons tivessem a mesma majestade daquelas gloriosas passadas de outrora.

13 comentários:

JULIO CESAR disse...

Muito bom... Me lembrou Casimiro de Abreu...Acho que na vida todos temos momentos em que a infância nos traz uma tremenda saudade...

Creio que o seu texto remete bem ao tema ao qual se propos a escrever...

O tema é pertinente a todos nós que um dia já lembramos com nostalgia de nossa querida infancia...

Grande abraço,

http://jc-newlife.blogspot.com/

Juliana disse...

O que dizer do seu texto? Simplesmente BELISSIMO!!!
Me apaixonei pela forma doce, suave e envolvente como o escreveu...parabéns!

A'ZaF disse...

Velhos tempos, se eu pudesse viver tudo de novo não sei se gostaria mas foram bons momentos aqueles...

abraço

http://paranoiaelucidez.blogspot.com/

amandaedalete disse...

Nossa! Vc Gosta muito de literatura... Dom Casmurro, Fernando pessoas...
Parabéns

Suellen Nara disse...

Que profundo!
Gostei dos taque, taque, taque.
Realmente sempre ficam na memória os mínimos detalhes possíveis.
E são esses pequenos detalhes que nos fazem lembrar de momentos de uma vida inteira.

Muito bom.

Taque ;)

Jason disse...

Taque, taque, taque...
Adorei o texto! Parece mesmo Dom Casmurro. Você tem o dom de escrever um texto que prende o leitor. Não consegui me conter até ler todo. Muito, muito bom.

Homenzinho de Barba Mal feita disse...

Nós só damos conta da importância, quando perdemos. E a infância é uma delas. Eu escrevi um post sobre os sonhos de criança. E que muita gente se identificou com que tinha escrito.
Gostei do conto, principalmente do paralelo que fez com a ave e a desconfiança.

PS.Obrigado pelo comentário em meu blog. Realmente eu não sabia daqueles detalhes sobre a ressaca.

Ideais e Alucinações disse...

Mas quem escreve com essa sensibilidade certamente possui a beleza da infância dentro de si...

Parabéns pelo conjunto da obra. Adorei!!
A imagem do template está linda..

Lucas Moratelli disse...

Certo, disseste em comentário a meu humilde poema que era genial.

Não sei se erro em dizer que vossa prosa é tão quanto, ou mais, genial.

Foi ótimo tê-lo lido.

E quanto a dor do texto, Clarice a explica (analisa) melhor que eu.
_
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." - Clarice Lispector

Chirifulfly disse...

Que belo texto!!!!

Daniel Moraes disse...

Bom, muito bom.
e deveras Fato, tudo que tem nele.
parabens;.

JULIO CESAR disse...

Então... Para ser sincero a Escola Literária de Casimiro de Abreu não é a que mais me chama a atenção... A leitura de Casimiro é gostosa quando se está preparado para tal...

Também visitarei seu Blog constantemente, gosto da sua linha e da forma como escreve, de maneira limpa e com profundidade.

Grande abraço,

Gabriela disse...

Admiro alguem gostar tanto de poemas e coisas assim... a única coisa que me anima nesse momento é um livro de harry potter!

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